RESUMO E CONCLUSÕES DO SEMINÁRIO OPEN INSURANCE: Primado do Cliente_ Oportunidades, Desafios e Testemunhos Internacionais

 

Resumo executivo

O seminário decorreu no dia 3 de julho 2026, no auditório da Abreu Advogados, um dos main Partners da FIF Portugal. Contou com bastante afluência, demonstrativa do interesse e curiosidade que o tema desperta, e iniciou com um pequeno almoço para Associados, Parceiros e Oradores, que foi um excelente momento de networking.

 

Teve como ideia central o desfio de que o Open Insurance não seja visto apenas como uma obrigação regulatória ou tecnológica, mas como uma oportunidade para redesenhar a experiência do cliente, reduzir o défice de proteção por uma mais eficaz sensibilização e literacia do risco, e aumentar a produtividade do setor, assente em novos modelos de colaboração entre seguradoras, mediadores, plataformas tecnológicas, consumidores e regulador. Miriam Nicolau da Costa, presidente da FIF, enquadrou o tema como um bom exemplo da missão e contributo que desta Associação no sentido de promover e levar à discussão oportunidades de inovação sustentável, ética, produtiva e orientada para uma relação mais forte entre todo o ecossistema.

A mensagem transversal foi clara: os dados pertencem ao cliente, e a sua “circulação” só ganhará tração, em termos de adesão à autorização pelos clientes, se houver confiança, consentimento compreensível, proteção contra usos abusivos e benefícios concretos para o Cliente, o que implica interoperabilidade entre todo o ecossistema com APIs normalizadas. Daí o nome deste seminário incluir o chavão “O Primado do Cliente”.

Todos os intervenientes defenderam que o desafio não é essencialmente tecnológico; é sobretudo de governação, coordenação setorial, vontade estratégica e desenho da experiência de cliente.

O testemunho do caso brasileiro, onde o Open Insurance começou já há quase 5 anos, foi apresentado por dois keynotes extremamente conhecedores, o que enriqueceu de forma determinante a contextualização prática do conceito.

Nas várias mesas redondas, os oradores foram convidados a deixar uma sugestão para a ASF e uma questão para os Keynotes Brasileiros.

Recordando a AGENDA:

Pequeno almoço de networking    (exclusivo para Associados e Parceiros da FIF e Oradores)

Boas Vindas

  • Nuno Sapateiro Partner da Abreu Advogados e Presidente da Mesa da assembleia Geral da FIF Portugal
  • Miriam Costa Presidente da Direção da FIF Portugal

Keynote Speaker 1: ASF

Mesa Redonda 1

  • MDS GROUP (Mário Vinhas, Administrador)
  • DECO (Vinay Pranjivan, Senior Economist/Advisor in consumer protection for financial services na DECO e Membro da EIOPA Insurance and Reinsurance Stakeholders Group (IRSG) – consumer representative)
  • APROSE (Nuno Martins, Presidente)

Mesa Redonda 2

 Mesa Redonda 2

Keynote Speaker 2: Strategy&, Brazil (part of the PwC Network), Willer Marcondes (Partner Financial Services | Payments)

Keynote Speaker 3: Priscila Figueiredo (CEO da Open Power, Spoc (Sociedade processadora da Ordem do Cliente no Open Insurance) – Brasil

Conclusões: Miriam Costa Presidente da Direção da FIF Portugal

 

Relembramos a contextualização:

Open Insurance: como uniformizar e controlar os dados, que informação ficará na esfera dos segredos comerciais das seguradoras, como criar valor para fidelizar ou conquistar o cliente, quem assume o controlo e o risco?

 Tendo em conta os desenvolvimentos regulatórios previstos a nível europeu, que abrirão caminho ao desenvolvimento do Open Insurance em Portugal, consideramos particularmente relevante promover uma reflexão alargada sobre os desafios, oportunidades e impactos desta transformação para o setor segurador.

 Reunimos representantes do regulador, especialistas jurídicos, distribuidores tradicionais e inovadores, fornecedores de tecnologia, representantes dos consumidores e líderes de inovação, com o objetivo de fomentar um debate qualificado sobre o futuro do Open Insurance em Portugal, na Europa em geral e no Brasil.

 

Preâmbulo regulatório:

No conceito usado pela EIOPA, Open Insurance abrange o acesso e a partilha de dados relacionados com seguros, pessoais e não pessoais, normalmente através de APIs. As oportunidades incluem melhor comparação, aconselhamento e eficiência; os riscos passam pela cibersegurança, responsabilidade, utilização ética dos dados e possível exclusão de consumidores.

No plano europeu, a Proposta de Regulamento FiDA – ainda em fase de negociação – procura dar ao cliente controlo sobre quem acede aos seus dados e para que finalidade, promovendo simultaneamente a normalização dos dados e das interfaces.

 

O FIDA pretende estender a lógica do Open Banking a outros serviços financeiros. O modelo proposto assenta em quatro elementos principais:

  1. o cliente pode autorizar um terceiro a aceder aos seus dados financeiros;
  2. a instituição que detém os dados passa a ter de os disponibilizar;
  3. os dados e interfaces deverão ser normalizados;
  4. existirão regras sobre autorização dos prestadores, responsabilidade, compensação e resolução de litígios.

Está igualmente previsto um painel de autorizações, através do qual o cliente poderá verificar quem está a aceder aos dados, para que finalidade e durante quanto tempo, podendo retirar a autorização.

 

O que deverá ficar abrangido no setor segurador

Embora o texto final não esteja fechado, existe uma convergência em torno da inclusão de:

  • dados relativos a seguros não vida em particular o seguro automóvel;
  • informação recolhida na avaliação das exigências e necessidades do cliente;
  • produtos de investimento com base em seguros (IBIPs);
  • dados da avaliação da adequação e do caráter apropriado, e preferências de sustentabilidade, associados aos IBIPs;
  • determinados produtos individuais de reforma e PEPP.

A proposta inicial e a posição do Parlamento excluem os dados relativos a saúde (afetando sobretudo seguros de saúde e de vida), dada a sua natureza de dados sensíveis à luz do RGPD e o risco de a sua partilha conduzir a práticas de subscrição discriminatórias ou à exclusão financeira de consumidores

 

Possível aplicação faseada

Um non-paper divulgado na Comissão Europeia em abril de 2026 apresenta, como possível calendário de aplicação:

  • 24 meses após a entrada em vigor: dados de seguro automóvel, incluindo dados da avaliação de exigências e necessidades;
  • 36 meses: determinados dados de investimento, criptoativos e PEPP;
  • 48 meses: restantes produtos de seguros abrangido, IBIPs e produtos individuais de reforma com base em seguros.

Trata-se apenas de uma proposta. As categorias, os prazos e a necessidade de atos de execução da Comissão ainda podem mudar.

 

Conclusões gerais do evento

 

  1. O Open Insurance deve ser tratado como projeto estruturante de mercado, não apenas como projeto de compliance. A tecnologia e a regulação são condições necessárias, mas o objetivo real é melhorar a proteção, confiança e experiência para os cidadãos e empresas e a produtividade para todo o ecossistema.
  2. A normalização é urgente. O setor precisa de APIs comuns, formatos partilhados, conceitos alinhados e uma linguagem técnica comum entre seguradoras, mediadores e tecnológicas. A conectividade também a bases de dadas de outros ecossistemas que possam trazer rigor e rapidez na caracterização dos riscos será bem-vinda. A produtividade é vital para que o foco dos diversos players, nomeadamente a distribuição, fique centrado em melhorar penetração do seguro no nosso país e bem como a qualidade dessa proteção.
  3. O cliente está no centro, mas não basta dizê-lo. O cliente só dará consentimento se perceber claramente que dados partilha, com quem, durante quanto tempo e que benefício concreto recebe.
  4. A adoção depende de simplicidade. Modelos com múltiplos portais, muitos cliques, autorizações pouco claras ou dashboards fragmentados tenderão a falhar. À partida, foi visto como uma vantagem a adoção de um portal centralizado para autorizações pelo Cliente (ao contrário do que tudo indica se passar no Brasil em que o Cliente tem de exercer a autorização em ferramentas de cada uma das seguradoras onde tem seguros).
  5. A confiança é a infraestrutura principal. Sem consentimento transparente, revogação fácil, auditoria centralizada e proteção contra dark patterns, o Open Insurance pode gerar resistência em vez de adesão.
  6. A mediação pode sair reforçada. O Open Insurance não elimina o mediador; pode libertá-lo de tarefas administrativas (caso haja efetivamente um aproveitamento do Open Insurance para mais produtiva transmissão e informação) e reforçar o seu papel em aconselhamento, prevenção, literacia de risco e gestão da carteira do cliente.
  7. A prevenção é um dos grandes casos de uso. Dados de sinistralidade (mas quais serão juridicamente dados do cliente e não apenas dos Seguradores?), comportamentos, coberturas e capitais podem permitir melhor prevenção, pricing mais ajustado, redução de subseguro e programas de gestão de risco mais eficazes.
  8. Portugal deve começar por casos simples e demonstráveis. O multirriscos habitação surgiu como exemplo forte, até pela premência em resolver o subseguro no nosso país e pela compreensão que o consumidor neste momento poderia ter dado os tão devastadores sinistros recentes: dados simples já existentes poderiam ajudar a reduzir subseguro e provar valor rapidamente.
  9. O regulador tem um papel de catalisador. Vários oradores defenderam que a ASF deve reunir o ecossistema, promover pilotos, orientar standards e criar condições para colaboração pré-competitiva. Surge mais em off a questão de quem pagará os desenvolvimentos necessários e os Seguradores aplaudiriam um forte apoio por parte da EU/estado, para que os custos não recaiam sobretudo sobre estes.
  10. O Brasil oferece lições muito úteis. A implementação demora, a adoção é difícil, o modelo deve incluir mediadores desde o início, a jornada do consumidor é crítica e a regulação deve evoluir com escuta ativa do mercado.
  11. A IA será aceleradora, não substituta. A inteligência artificial pode ser um grande aliado na uniformização de dados, identificação de gaps de cobertura, apoiar simulações e reduzir trabalho administrativo, mas a confiança e o aconselhamento contextualizado continuam humanos.
  12. A colaboração entre concorrentes é inevitável.

A frase transversal do evento poderia ser: competir no serviço, na proposta de valor e na relação com o cliente, mas colaborar na infraestrutura, standards e confiança a transmitir ao cliente.

 

Resumo e Conclusões por orador

Boas-vindas

Nuno Sapateiro abriu a sessão com uma nota de enquadramento e acolhimento, sublinhando o objetivo de cumprir uma jornada contínua de reflexão sobre Open Insurance. Enquanto moderador da primeira mesa, posicionou a discussão em torno da mudança de paradigma: durante anos o setor tratou os dados sobretudo como matéria de restrição e consentimento; com o FIDA e o Open Insurance, a questão passa a ser como utilizar os dados, com segurança, para criar valor no setor segurador.

Miriam Costa enquadrou o evento na missão da FIF: debater inovação numa lógica 360º, com foco em sustentabilidade, ética, produtividade e colaboração. Destacou o potencial do Open Insurance para “descomoditizar” os seguros, tornando os produtos mais compreensíveis, simples e úteis para o cliente, e para abrir oportunidades a startups e novos modelos de negócio. Também insistiu na necessidade de sentar à mesma mesa os diferentes layers do setor para encontrar formatos de inovação que beneficiem todos.

 

Keynote 1 — ASF, Luís Baltazar

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Luís Baltazar apresentou o Open Insurance como um modelo de acesso e partilha de dados relacionados com seguros, através de APIs, com base no consentimento expresso do cliente. Sublinhou que as APIs são a infraestrutura invisível que permite interoperabilidade entre seguradoras, mediadores, consumidores e supervisores, mas que o Open Insurance é mais do que uma ferramenta tecnológica: pode constituir um novo modelo de funcionamento do mercado, promovendo inovação, concorrência e melhores soluções para os consumidores.

A sua conclusão principal foi que o FIDA pode ser um game changer, mas a regulação não cria inovação por si só; cria a infraestrutura legal e técnica para que a inovação aconteça. Do lado das oportunidades, destacou a automatização, a redução de ineficiências, a criação de novos produtos e o reforço potencial do papel dos mediadores. Do lado dos riscos, alertou para a entrada de atores não regulados, big techs, dependência tecnológica, cibersegurança, governação de dados, proteção de dados sensíveis, resistência à mudança e necessidade de confiança nos produtos, operadores e supervisão.

Referiu que a inovação, não só por imperativos da UE, mas por visão assumida, é um dos pontos do plano estratégico da ASF, enquanto catalisador de inovação responsável, e que o ecossistema deve ter em conta este aspeto. A nível europeu encontramo-nos num impasse, nomeadamente quanto à permissão ou restrição de entrada das Big Techs.

Mesa Redonda 1 — Distribuição e os clientes: maior produtividade e satisfação?

Mário Vinhas — MDS Group

A conclusão mais forte de Mário Vinhas foi que o Open Insurance não deve ser discutido primariamente como tema de legislação ou tecnologia, mas como tema de experiência de cliente. Defendeu que existe um “innovation gap” entre a tecnologia disponível e aquilo que o consumidor já espera do setor, e que o mercado português ainda não tem o grau de coordenação, APIs e envolvimento coletivo necessário para implementar rapidamente um modelo robusto. Nem todos os players têm demonstrado a mesma disponibilidade para esta temática dos API’s que já se coloca há muito tempo.

Defendeu também que o setor deve abandonar a ilusão de controlo do cliente e de que só o setor sabe de seguros: o “segurês” é cada vez mais descodificado pela IA e o cliente quer opções, comparação, aconselhamento, relevância e serviço. Para Mário Vinhas, a concorrência é positiva e a mediação deve reforçar a sua relevância através da gestão de risco, prevenção e aconselhamento. É nesses campos que residirá a verdadeira diferenciação entre players. A frase operacional da sua intervenção é: a prevenção não se faz sem dados. Sem dados detalhados de sinistralidade, saúde, acidentes de trabalho ou automóvel, não é possível discutir com o cliente como mitigar riscos ou desenhar melhores programas de transferência de risco.

Vinay Pranjivan — DECO

Vinay Pranjivan assumiu uma posição favorável ao FIDA, mas condicionada a um bom desenho do ponto de vista do consumidor. A sua principal preocupação foi a fronteira entre personalização e discriminação: a personalização pode melhorar a adequação dos produtos, mas também pode conduzir a segmentação, exclusão, risk profiling e perda de acesso a seguros por determinados perfis de consumidores. Alertou ainda para riscos acrescidos na potencial entrada das big techs, com concentração excessiva de informação.

Na parte do consentimento, defendeu que os dados são do cliente e que este tem de saber que dados existem, para que são usados, quem os usa e durante quanto tempo. A sua conclusão prática foi que o consentimento deve ser gerido num dashboard central, detalhado, mas compreensível, sem dark patterns, com limite temporal e com revogação tão fácil como a autorização.

A DECO atua no terreno e tem sido chamada a nível europeu para fórum de discussão sobre a temática e literacia financeira. Neste último capítulo considera que se tem estado a fazer um trabalho muito meritório, mencionando ainda o novo plano de embaixadores lançado por Maria Luís Albuquerque, mas que ao nível da literacia digital e jurídica, o Open Insurance implica um esforço de literacia apurados para os quais a ASF deve estar muito comprometida.

Nuno Martins — APROSE

Nuno Martins centrou a sua intervenção na ideia de que o Open Insurance deve servir para dar mais conhecimento e liberdade ao consumidor, aumentando a sua literacia de risco: que produtos tem, onde os tem, que riscos estão cobertos e quais os gaps de proteção. Para a mediação, a partilha de dados pode permitir aconselhamento mais qualificado e personalização de soluções.

Quanto ao impacto nos mediadores pequenos, a sua leitura foi relativamente positiva: mais informação pode democratizar o acesso ao conhecimento sobre o cliente e reduzir assimetrias entre grandes e pequenos operadores. Reconheceu, porém, que a consolidação da mediação continuará a acontecer, quer por exigências tecnológicas e regulatórias, quer pela dificuldade de alguns mediadores acompanharem a transformação tecnológica. Mas os movimentos de fusões são historicamente cíclicos e uma vez consolidando, cria-se oportunidade de fase de surgimento de novos players e modelos.

A sua mensagem ao regulador foi clara: para a APROSE, o FIDA deve ser usado como oportunidade para criar comunicação protocolada e APIs comuns entre seguradoras e mediadores. Sem orientação do regulador, ainda que não necessariamente obrigatória, dificilmente o setor avançará em conjunto.

Na Aprose foi já constituído um grupo de trabalho, para o qual convidaram empresa conhecida de consultoria, e estão naturalmente interessados e totalmente disponíveis para colaborar com a ASF.

Conclusão da Mesa 1

A primeira mesa concluiu que a distribuição pode ganhar produtividade e melhorar a satisfação do cliente se o Open Insurance for usado para reforçar aconselhamento, comparação, prevenção e literacia de risco. O risco é reduzir o tema a preço, compliance ou extração de dados. A oportunidade é transformar a mediação num serviço mais relevante, menos administrativo e mais centrado na gestão do risco do cliente.

Mesa Redonda 2 — Nova geração de mediadores: desafios da oportunidade

João Pedro Madureira — UTHERE Partners

João Pedro Madureira defendeu que a concorrência pode aumentar o mercado, não apenas redistribuí-lo. A sua principal conclusão foi que a adoção do Open Insurance dependerá da simplicidade da jornada do cliente. Se o processo for difícil, o cliente não o fará. Exemplificou com dificuldades básicas, como um cliente não conseguir avançar numa simulação de seguro de habitação por não saber a área exata da casa, apesar de essa informação já existir noutros sistemas e poder ser partilhada.

Para João Pedro Madureira, o setor está organizado em silos e faltam praticamente todos os dados necessários para facilitar a vida ao cliente. Defendeu ainda soluções de consentimento simples, eventualmente baseadas em tokenização ou entidade central, e antecipou que a abertura do mercado trará inovação e novos tipos de startups, incluindo wallets de seguros, ferramentas de análise de carteiras, soluções de automação e mecanismos de deteção de duplicações ou gaps de cobertura.

Ana Teixeira — MUDEY

Ana Teixeira apresentou uma das propostas mais concretas do evento: iniciar a implementação do Open Insurance através de um primeiro caso de utilização no Seguro Multirriscos Habitação, assente na partilha estruturada de dados entre seguradoras, mediadores e restantes intervenientes do setor, sem necessidade de esperar pela entrada em vigor do regulamento europeu. Defendeu uma abordagem pragmática, assente numa lógica de sprint: começar pequeno, testar, demonstrar valor e evoluir gradualmente. Salientou que muitos dos dados necessários — como o código postal, a área do imóvel ou o capital seguro — já existem e que a sua utilização estruturada, complementada com informação proveniente, por exemplo, das certidões prediais, poderá contribuir para reduzir significativamente as situações de subseguro.

Num contexto marcado pelas recentes catástrofes no centro do país, este caso de utilização assume uma relevância particular por ser facilmente compreendido pelos consumidores. O trabalho que está atualmente a ser desenvolvido nesta matéria representa uma oportunidade para integrar, desde já, os princípios do Open Insurance, permitindo agilizar a contratação de coberturas mais adequadas e promover uma gestão do risco mais eficaz, assente em informação fiável e atualizada. Em vez de o setor continuar centrado na discussão do conceito e dos seus potenciais benefícios, este seria um primeiro caso de utilização capaz de transformar a teoria em prática, ultrapassar barreiras à implementação e demonstrar, com resultados concretos, o valor da partilha estruturada de dados para consumidores, mediadores e seguradoras.

Na sua intervenção, defendeu que o Open Insurance deve ter um propósito claro e partilhado por todo o setor: reduzir o protection gap e proporcionar mais e melhor proteção aos consumidores. Em vez de começar pela tecnologia ou pela simples disponibilidade de dados, considerou que a prioridade deve ser resolver problemas concretos dos clientes. A tecnologia é hoje um facilitador e já não constitui o principal obstáculo; o verdadeiro desafio está em identificar casos de utilização que demonstrem valor desde o primeiro momento e reforcem a capacidade dos consumidores para proteger melhor o seu património.

Para que essa transformação aconteça, acrescentou, é indispensável que os consumidores percecionem um benefício imediato, individual e concreto. A simples circulação de dados não constitui, por si só, uma proposta de valor suficientemente forte. O foco deve manter-se na verdadeira razão de ser do Open Insurance: utilizar a partilha estruturada de dados para ajudar cada consumidor a tomar melhores decisões, reduzir o seu protection gap e proporcionar uma proteção mais adequada às suas necessidades — em suma, mais e melhor proteção.

André Gil — Doutor Finanças

André Gil colocou a tónica nos dados de sinistralidade e no potencial da partilha de informação para melhorar não só a experiência do cliente, mas também o trabalho do distribuidor e das seguradoras. Defendeu que dados mais detalhados de sinistros, comportamentos e boas práticas permitiriam trabalhar melhor a prevenção e criar condições mais ajustadas ao risco real.

Do ponto de vista tecnológico, referiu que o Doutor Finanças dispõe de plataforma própria e capacidade interna de IT, mas defendeu APIs globalizadas, comuns e acessíveis a todos os distribuidores. A conclusão é que a democratização tecnológica não deve depender de cada operador suportar sozinho o custo inicial de integração; um modelo partilhado ou baseado em utilização pode facilitar o acesso e promover diferenciação no serviço ao cliente.

Conclusão da Mesa 2

A segunda mesa concluiu que a nova geração de mediadores está mais preparada tecnologicamente, mas continua dependente de acesso efetivo a dados, integração com seguradoras e mecanismos simples de consentimento. O Open Insurance só será adotado se resolver problemas concretos: subseguro, gaps de cobertura, duplicação de apólices, dificuldade de simulação, prevenção e melhor aconselhamento. O cliente não aderirá por convicção abstrata; aderirá se perceber valor imediato.

Mesa Redonda 3 — Tecnologia: da API à confiança

Leandro Fernandes — LLUNI

Leandro Fernandes começou por desmontar a ideia de que Portugal parte do zero. Segundo a sua intervenção, já existem APIs e integrações relevantes no mercado, incluindo transferência diária de ficheiros com 16 seguradoras, cobrindo a quase totalidade do mercado em dados de carteira pós-venda. O problema é que esses dados não estão uniformizados nem estandardizados.

A sua conclusão foi que o desafio principal não é tecnológico, mas político, regulatório e de coordenação. Faltam standards comuns, especialmente em pré-venda, propostas, produtos e sinistros. Sobre consentimento, defendeu um modelo centralizado, com token único, validações definidas pelo regulador e log de auditoria centralizado, para evitar abusos e para que a experiência seja simples. Se o consentimento for complexo, o Open Insurance corre o risco de se tornar apenas mais um regulamento sem utilização real.

José Lino Ferreira — MPM Software

José Lino Ferreira trouxe para o debate a experiência do mercado espanhol como referência prática para a evolução do Open Insurance. Referiu que, em Espanha, uma entidade participada pelas seguradoras disponibiliza serviços de suporte à mediação, incluindo mecanismos de partilha de dados em formatos uniformizados. Esta abordagem facilita o trabalho dos distribuidores, permitindo aceder à informação das Seguradoras de forma centralizada.

Em Portugal, pelo contrário, a integração entre seguradoras e distribuidores continua muito fragmentada, com cada seguradora a adotar os seus próprios webservices, formatos, códigos e práticas operacionais. Esta realidade aumenta custos de desenvolvimento e manutenção, dificulta a interoperabilidade e cria ineficiências para mediadores e fornecedores tecnológicos.

A sua conclusão foi que o Open Insurance deve ser encarado como um projeto de ecossistema e não apenas como um desafio tecnológico. Defendeu, por isso, uma colaboração estruturada entre seguradoras, mediadores, tecnológicas e regulador, idealmente com orientação da ASF.

Nesse contexto, sugeriu a criação de uma infraestrutura comum para o setor segurador, numa lógica semelhante à da SIBS nos pagamentos, capaz de promover uma linguagem comum, normalizar conceitos, coberturas e fluxos de dados, evitando a proliferação de API’s de forma descontrolada e descoordenada.

Manuel Brandão — CRAFTEER

Manuel Brandão focou-se no papel da inteligência artificial. A sua conclusão foi que a IA pode ajudar a uniformizar dados, interpretar carteiras, identificar gaps de cobertura, duplicações e oportunidades de melhor proteção, mas não deve substituir o mediador. Pelo contrário, deve libertar o mediador de trabalho administrativo para que este volte a estar mais próximo do cliente.

Defendeu que a mediação de seguros continuará a depender de pessoas, confiança, contacto e presença. A tecnologia deve servir para reduzir tarefas repetitivas, apoiar simulações, ler dados e transformar informação dispersa em recomendações acionáveis. A conclusão mais forte foi que a IA não substitui o mediador, mas os mediadores que a utilizarem bem poderão ganhar vantagem face aos que continuarem presos ao trabalho administrativo.

Paulo Padilha — moderação

Paulo Padilha enquadrou a mesa tecnológica com uma ideia repetida por vários intervenientes: o Open Insurance é incontornável, mas não se resolve apenas com tecnologia. Os temas decisivos são interoperabilidade, consentimento, segurança, responsabilidade, custos, IA e confiança. Também reforçou a necessidade de uma entidade agregadora, standards e liderança regulatória, à semelhança do que aconteceu noutros setores.

Conclusão da Mesa 3

A terceira mesa concluiu que a tecnologia existe, mas falta arquitetura comum. O maior risco não é a ausência de APIs, mas a existência de demasiadas APIs diferentes. A prioridade deve ser criar standards, consentimento centralizado, auditoria, linguagem comum, modelos de custos proporcionais e integração entre seguradoras, mediadores e fornecedores tecnológicos.

 

Testemunhos internacionais — Brasil

Como funciona o consentimento no Open Insurance brasileiro

No modelo brasileiro de Open Insurance – que iniciou há quase 5 anos- , a partilha de dados depende do consentimento livre, informado e inequívoco do cliente, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e com a regulamentação da Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) e do Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP).

Em linhas gerais, o fluxo funciona da seguinte forma:

  • o cliente inicia uma solicitação junto à instituição que pretende receber seus dados (instituição receptora), podendo essa interação ocorrer diretamente ou por intermédio de uma Sociedade Processadora de Ordem do Cliente (SPOC);
  • após essa solicitação, o cliente é direcionado à instituição que atualmente detém seus dados (instituição transmissora) para autenticar sua identidade e confirmar a autorização para o compartilhamento;
  • uma vez confirmada a autorização, os dados são compartilhados na forma autorizada pelo consentimento, observadas as finalidades, o prazo de validade do consentimento e as demais regras estabelecidas na regulamentação.

O consentimento deve permanecer rastreável durante todo o seu ciclo de vida, permitindo auditoria e comprovação pelas instituições participantes envolvidas no compartilhamento.

Não existe um repositório central único onde todos os consentimentos sejam armazenados.

O papel das SPOCs no Open Insurance brasileiro (para já só existem duas)

No Open Insurance brasileiro, SPOC significa Sociedade Processadora de Ordem do Cliente.

Trata-se de uma pessoa jurídica credenciada pela SUSEP para atuar em nome do cliente na transmissão de ordens relacionadas com a partilha de dados e à iniciação dos serviços previstos na regulamentação do Open Insurance.

As SPOCs foram concebidas para facilitar a integração entre os participantes do ecossistema, permitindo que consumidores, corretores, seguradoras e demais instituições possam utilizar uma infraestrutura especializada para operacionalizar as jornadas previstas no Open Insurance.

Entre suas principais funções destacam-se:

  • operacionalização das jornadas de compartilhamento de dados;
  • transmissão das ordens do cliente às instituições participantes;
  • integração tecnológica com as APIs regulatórias;
  • observância dos requisitos de segurança da informação, autenticação e governança previstos na regulamentação;
  • fornecimento de dashboards, painéis de controle, agregadores e serviços destinados ao aprimoramento da experiência do usuário.

O ecossistema do Open Insurance ainda está em processo de amadurecimento, Segundo dados oficiais da estrutura de governação de 2026, a 25 de junho 26 havia 8.537 consentimentos ativos no Open Insurance. Já no Open Finance – iniciado antes e com um número já bastante significativo de entidades aderentes – à mesma data, se registavam 61,9 milhões de consentimentos ativos e aproximadamente 40,8 milhões de consentimentos únicos em 2024.

Willer Marcondes — Strategy&, PwC Brasil

 

Willer Marcondes apresentou o Open Insurance brasileiro como parte de uma ambição mais ampla de desenvolvimento do mercado segurador, associada ao crescimento da penetração dos seguros e à integração futura com o Open Finance. Foi estabelecida uma meta pela CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras), juntamente com o regulador (SUSEP), de atingir um valor de cerca de 10% do PIB até 2030, definindo metas evolutivas para o efeito. O Open Insurance foi apontado pelo palestrante como uma das alavancas mais importantes dentro dos pilares desta transformação, sublinhando a necessidade de melhorar a imagem do setor, tornando-o mais digital, conectado e percetível em valor para a sociedade.

Marcondes explicou que o modelo brasileiro inclui seguradores obrigados a participar e um conjunto mais alargado de outros para os quais a adesão é, de momento, opcional, conforme o seu nível regulatório. Mesmo os operadores obrigados podem optar por um patamar mínimo de investimento e adoção, ou utilizar o Open Insurance como um verdadeiro driver de inovação e fidelização. A discussão atual no mercado brasileiro é que a não adesão pode induzir a uma desconexão com o cliente, que exige cada vez mais inovação, novos serviços e a capacidade de usar a sua própria informação em benefício próprio. Por outro lado, o Open Insurance permite o acesso a dados colaborativos com vantagens na monitorização de segurança, inovação, padronização e no facto de a própria mediação vir a privilegiar os seguradores aderentes.

A conclusão estratégica apontada pelo especialista é que os operadores podem posicionar-se de três formas:

  • Ataque: usando dados para conquistar clientes;
  • Defesa: protegendo a sua base atual;
  • Habilitação: criando infraestrutura, marketplaces, integração e novos serviços.

Contudo, Marcondes alertou que não é trivial recolher devidamente a informação e saber tirar partido dela nos modelos de risco, existindo uma curva de aprendizagem semelhante à que se assistiu no Brasil com o Open Finance.

Para o palestrante, a principal lição do caso brasileiro é que a implementação é mais lenta e complexa do que o calendário inicial sugeria:

  • Fase 1 (dados abertos/agregados) já está em produção;
  • Fase 2 (consentimento e partilha de dados de seguros) está operacional, mas ainda com qualidade e utilização limitadas;
  • Fase 3 (iniciação de transações) é a mais transformadora e encontra-se em construção.

Willer Marcondes comparou ainda o Open Insurance com o Open Finance, destacando que o setor segurador tem menor frequência de interação e menor padronização de dados, razões que justificam uma adoção mais lenta. O Pix (sistema de pagamentos instantâneos brasileiro) veio — tal como a Sibs e o MB Way em Portugal — dar velocidade à padronização e à intercomunicação.

Por fim, destacou-se a adaptação da SUSEP (regulador brasileiro), que evoluiu para um modelo de escuta ativa do mercado, com tomada de decisões partilhadas e mecanismos de controlo mais flexíveis. Atualmente, o ecossistema conta com 67 entidades conectadas e uma importante infraestrutura de debate para melhorias, com 8 grupos técnicos que envolvem 230 profissionais (em áreas como arquitetura, cibersegurança e experiência do consumidor).

A conclusão é que o Open Insurance brasileiro ainda está a amadurecer, mas já demonstra que a experiência do cliente, a qualidade dos dados e a abertura do regulador ao diálogo são fatores críticos de sucesso.

Priscila Figueiredo — Open Power, SPOC Brasil

Priscila Figueiredo trouxe a visão prática de quem participa diretamente no ecossistema brasileiro. Uma das principais lições foi a importância de incluir os intermediários desde o início. No Brasil, a primeira versão do modelo foi inspirada no Open Banking e acabou por não refletir adequadamente a lógica do mercado segurador; os corretores ficaram inicialmente fora do desenho e isso gerou problemas que tiveram de ser corrigidos mais tarde com a criação da figura da SPOC.

Defendeu que a SPOC pode reduzir a complexidade do consentimento, funcionando como entidade especializada na execução da ordem do cliente e, potencialmente, como guardiã de um consentimento único. A sua crítica ao modelo atual é que pedir ao cliente para entrar seguradora a seguradora é uma jornada demasiado pesada e pouco realista. Também sublinhou a necessidade de proporcionalidade regulatória, porque uma nova entidade pode nascer pequena, mas ser obrigada a cumprir requisitos quase equivalentes aos de uma estrutura muito maior.

A sua conclusão final foi que a regulação deve ser viva, evolutiva e construída em diálogo permanente com os participantes. O consumidor deve estar no centro, mas isso exige testar casos de uso, ajustar jornadas e evitar padronizar em excesso aquilo que pode ser fator de diferenciação. A frase que sintetiza a sua intervenção é: é possível ser concorrente e trabalhar em conjunto.

Q&A e encerramento

As perguntas foram sendo colocadas no fim de cada mesa, sobretudo sugestões dirigidas à ASF e questões aos oradores brasileiros, incidindo sobre o que fazer diferente, como aumentar a adoção, que papel deve ter o regulador e que tipo de infraestrutura comum deve ser criada.

No encerramento, Miriam Costa retomou a ideia de que Portugal pode aprender com o Brasil e que seria útil criar processos colaborativos semelhantes aos promovidos pela SUSEP. Reforçou a disponibilidade da FIF para fazer pontes, promover debate e continuar a trabalhar sobre inovação sustentável, ética, produtiva e orientada para a qualidade do cliente.

 

Deu ainda nota do próximo evento da FIF PORTUGAL em colaboração com a MADFINTECH, o V FÓRUM INSURTECH desta feita IBEROAMERICANO, que se realiza a 22 de setembro, no Unicorn Factory em Lisboa, espaço de debate de temas emergentes no setor segurador, a par de sessão alargada de pitches de startups que trazem muita inovação para o setor. Na última edição participaram 27 de 3 continentes! Inscrições e candidaturas a Pitch abertas em

V Fórum Insurtech Ibero-Americano

 

 

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