
Análise FIF · Ciência & Inovação
Quanto deve Portugal investir em ciência fundamental versus inovação empresarial? Que áreas científicas merecem prioridade orçamental na próxima década? E como garantir que o dinheiro público de I&D deixa de estar refém dos ciclos políticos? Estas são algumas das perguntas que o Relatório de Focagem Estratégica, divulgado em junho de 2026, começa a responder — e que estão agora em consulta pública.
O documento é o primeiro entregável de uma avaliação estratégica de grande escala, promovida pelo XXV Governo Constitucional, para apoiar a criação da Agência para a Investigação e Inovação, E.P.E. (AI²), instituída pelo Decreto-Lei n.º 132/2025. A AI² vai centralizar o financiamento e a avaliação da ciência, da valorização do conhecimento e da inovação empresarial de base científica e tecnológica em Portugal, substituindo o atual modelo mais disperso entre a FCT e a ANI.
Uma “Visão para 2050” construída com mais de 400 contributos
Coordenado cientificamente por Maria do Rosário Partidário (Instituto Superior Técnico), o processo aplicou a metodologia ST4S — Strategic Thinking for Sustainability, baseada em backcasting: definir primeiro o futuro desejado e só depois traçar o caminho até lá.
Entre janeiro e maio de 2026, o processo recolheu mais de 400 contributos de entidades nacionais e regionais do ecossistema científico e empresarial, através de reuniões institucionais, mesas temáticas e cinco workshops descentralizados — em Évora, Funchal, Bragança, Porto e Coimbra. O resultado é uma “Visão para 2050” em que Portugal se afirma como um país que “cria talento e conhecimento e os transforma em valor económico, social, cultural e ambiental”, com um sistema de investigação e inovação competitivo e ligado a redes internacionais.
O retrato (pouco confortável) da ciência portuguesa
O relatório não poupa nos números. Portugal tem hoje cerca de 65 mil investigadores, 312 unidades de I&D e 56 infraestruturas científicas — mas com carreiras precárias e estabilidade laboral abaixo da média internacional. O financiamento está longe de ser equilibrado: o índice de desigualdade na distribuição chega a 0,58 (Gini), e o SIFIDE (incentivo fiscal) representa quase toda — cerca de 99% — a despesa fiscal em I&D, evidenciando uma arquitetura de financiamento pouco diversificada.
Entre as fragilidades mais citadas: fragmentação institucional, excesso de burocracia, dependência de ciclos políticos e uma “fratura cultural” persistente entre a academia e as empresas, que trava a transformação de conhecimento científico em valor económico — precisamente o tipo de gap que ecossistemas de inovação como o da FIF procuram fechar.
Cinco fatores vão decidir para onde vai o dinheiro
O coração do relatório é o Quadro de Avaliação Estratégica, construído à volta de cinco Fatores Críticos para a Decisão (FCD) que vão nortear a futura alocação orçamental da AI²:
Excelência da Investigação Científica — qualidade, originalidade e liderança internacional.
Ciência e Inovação como Motor de Desenvolvimento — competitividade, exportações de alta tecnologia e soberania tecnológica europeia.
Organização e Coordenação do SNCTI — menos fragmentação, mais governança interministerial e capacidade de antecipação estratégica.
Financiamento Estável e Diversificado — para lá das subvenções: capital de risco, equity, blended funding e incentivos fiscais mais equilibrados.
Recursos Humanos e Infraestruturas — atração e retenção de talento, partilha de infraestruturas críticas.
É no quarto fator — financiamento — que o setor financeiro e segurador tem mais a dizer: o relatório assume abertamente a necessidade de diversificar o financiamento científico para além do modelo atual, fortemente dependente de fundos públicos e incentivos fiscais, abrindo espaço a capital de risco, equity e modelos híbridos público-privados.
O que vem a seguir
O relatório está agora em consulta pública, disponível na plataforma AI2participa.pt. Os contributos recolhidos vão alimentar a segunda fase do processo — identificação e avaliação de opções estratégicas — com uma conferência final e a assinatura do contrato-programa plurianual da AI² previstos para o final de 2026.
Para quem acompanha de perto a inovação em Portugal, este é o momento de participar: as regras do financiamento científico e tecnológico da próxima década estão a ser escritas agora.
Fonte: Relatório de Focagem Estratégica — Avaliação estratégica para a definição das prioridades nacionais de investigação e inovação no âmbito da criação da AI², PLANAPP/DGE/DGEPA, junho de 2026.

