Pagamentos em 2026: entre a queda do numerário, a resiliência dos cartões e a entrada na era dos pagamentos integrados

Pagamentos em 2026: entre a queda do numerário, a resiliência dos cartões e a entrada na era dos pagamentos integrados

Nos últimos anos, os pagamentos em Portugal e na Europa passaram por uma transformação profunda. A pandemia acelerou a adoção de pagamentos eletrónicos e abriu caminho a um novo paradigma, onde o numerário perde peso, os cartões reforçam a sua resiliência, as transferências ganham terreno e emergem novas soluções — desde o account-to-account às wallets, à tokenização, aos pagamentos embebidos e à inteligência artificial aplicada ao checkout.

Mas, ao contrário da perceção comum, esta transformação não é homogénea. Há diferenças marcantes entre países, setores e canais. Compreender o que poderá marcar 2026 implica olhar simultaneamente para os dados, para a política europeia, para a tecnologia e para o comportamento dos consumidores.

 

  1. O crescimento do online é relevante, mas o POS continua dominante

O último relatório SPACE, do BCE, estuda a evolução do uso dos meios de pagamento desde 2019:

  • Nº de Transação no “dia a dia” na Zona Euro (2019): POS 87% · Online 7% · P2P 5%
  • Nº de Transação no “dia a dia” na Zona Euro (2024): POS 75% · Online 21% · P2P 4%

Apesar do crescimento expressivo do online, 3/4 das transações continuam a ocorrer no POS físico.

Em Portugal, o peso do online é mais reduzido. Os dados da SIBS mostram que:

  • Em 2025, apenas 9% das compras com cartão processadas na SIBS foram online (vs. 6% em 2023). O crescimento existe, mas Portugal está muito abaixo da média europeia (21%).

Esta constatação é essencial: a maior parte da economia portuguesa e europeia continua a ser transacionada presencialmente.

 

  1. No ponto de venda, o numerário está em queda acentuada

Os dados disponíveis mostram uma tendência consistente de redução do uso de numerário, embora existam algumas diferenças metodológicas entre fontes (para perceber qual a base):

BCE/SPACE (2024), nº de pagamentos no POS por meio de pagamento:

  • Zona Euro: 52% numerário, 39% cartões, 6% mobile, 3% outros
  • Portugal: 54% numerário, 38% cartões, 4% mobile, 3% outros

Banco de Portugal (BdP) / SIBS:

  • BdP (2017–2022): Queda de 28% de utulização de numerário no retalho, descendo o peso de 60% para 43%
  • SIBS (2025/2024): Redução de ~6% no número de levantamentos com cartão

Apesar da variabilidade, parece seguro afirmar: Em Portugal, o numerário já deve representar menos de 50% dos pagamentos no POS — e com tendência para continuar a cair. Isto tem criado espaço significativo para o crescimento dos pagamentos eletrónicos.

 

  1. Pagamentos eletrónicos: aceleração forte em Portugal

Entre 2020 e 2024, e de acordo com dados do Banco de Portugal, os pagamentos eletrónicos cresceram em Portugal +15% ao ano, cinco vezes mais rápido do que na década anterior.

Cartões: o “rail” dominante

  • Crescimento médio anual: +16%
  • Crescimento em 2025 (Jan–Set): +7%
  • Beneficiando de, nomeadamente: contactless, xPays, MB Way, tokenização.

Transferências imediatas: o “rail” com crescimento mais rápido

  • +1.746% entre 2024 e 2025 (Jan–Set)
  • Em 2025, a massificação deste meio resultou da entrada em vigor do Instant Payments Regulation, que obrigou os bancos a oferecer imediatas ao mesmo custo das SEPA normais.

As transferências imediatas promoveram, em 2025, a duplicação do número total de transferências.

Apesar do crescimento impressionante das transferências imediatas, as transferências totais ainda têm um peso pouco representativo face aos Cartões. Um dos fatores chave para perceber a “massificação” da solução tem a ver com o ticket médio (eg. Cartões: ~50€, Transferências imediatas: ~400€; Transferências regulares: ~2.200€).

Em 2025, o peso dos cartões no número de pagamentos eletrónicos foi de 87% (face a 13% dos “Account-to-Account” (A2A), que incluem Transferências + Transferências imediatas + Débitos Diretos ).

 

  1. O online cresce, mas parte de uma base baixa em Portugal

Metade dos portugueses compra online (INE), mas apenas ~7% das transações com cartão são online (vs. 21% na média europeia).

Dois insights importantes relacionados:

  1. O e-commerce continua com elevado potencial de crescimento em Portugal.
  2. Inovações como tokenização, agentic payments e BNPL terão mais impacto no online do que no POS físico

      5.  A estratégia europeia: reduzir dependência de Visa/Mastercard

A União Europeia tem colocado a soberania nos pagamentos no centro da agenda, procurando criar alternativas europeias às redes internacionais.

I. Reforço legislativo do account-to-account (A2A)

  • Instant Payments Regulation: instantâneas tornam-se “mainstream” e ao preço das transferências normais.
  • PSD3 / PSR: reforço das APIs e combate à fraude.
  • FIDA: enquadramento para Open Finance programável.

II. Euro Digital

Continua em fase de desenvolvimento. Não terá impacto operacional em 2026, mas é um projeto estruturante para 2028–2030.

III. “Promoção” de novas infraestruturas pan-europeias, como por exemplo:

  • Wero (EPI): wallet A2A para P2P, POS e e-commerce.
  • EuroPA: interoperabilidade entre MB Way, Bizum, Bancomat Pay, Blik, Vipps, entre outros em pipeline.
  1. A transformação do Terminal: terminais Android, SoftPOS e entrada de ISVs

Durante décadas, o mercado foi dominado por terminais “legacy”, fechados e com funcionalidades limitadas. Isto está a mudar rapidamente, por exemplo, o BCG Global Payments Report 2025 reforça que:

  • plataformas de software vertical (ISV’s) crescem 2–3x mais rápido do que adquirentes
  • 40–50% do valor futuro do acquiring virá de software + pagamentos embebidos

O terminal deixa de ser um hardware fechado, alterando profundamente a experiência do comerciante e abrindo portas ao meios de pagamentos alternativo (eg. A2A, ao QR, às wallets) e ao pagamento integrado.

Em Portugal, a base de Android POS ainda é pequena, mas a entrada de novos players está a acelerar o crescimento e a pressionar os incumbentes a inovarem.

  1. Embedded payments: pagamentos invisíveis dentro dos processos

A maturidade digital das empresas e do retalho está a criar condições ideais para a adoção dos embedded payments, que permitem:

  • integrar pagamentos nativamente em sistemas de reservas, logística, faturação ou CRM
  • criar modelos SaaS + pagamentos
  • reduzir fricção e aumentar conversão
  • simplificar operações (reconciliação, reporting, fecho do dia)

Este paradigma está a crescer tanto no online como em modelos híbridos (em Portugal, no entanto, ainda não se encontra massificado).

 

  1. Agentic payments: impacto crescente no online, influência indireta no POS

Vários reports e especialistas, nomedamente, o da BCG, identificam os agentic payments como uma das tendências tecnológicas mais relevantes da década:

  • 81% dos consumidores usarão agentes inteligentes
  • $1 trilião em compras poderão ser influenciadas por IA
  • 50% do e-commerce poderá envolver agentes

Onde poderão ter maior impacto? Especificamente no e-commerce como um todo ou então em tópicos gerais como a gestão da fraude global. No entanto vão produzir desafios em termos de autenticação, identidade digital e/ou na evolução dos modelos de fraude.

 

  1. Conclusões para 2026

Com base nos dados e tendências tecnológicas e regulatórias, sou da opinião que os pagamentos em 2026 em Portugal serão marcados por:

  1. Queda continuada do cash (mas menos acentuada): Portugal poderá aproximar-se de 35–40% (peso de numerário)
  2. Os cartões continuarão a crescer: Apoiados na experiência contactless, nas wallets e tokenização
  3. O A2A continuará a crescer de forma rápida: Suportado pela massificação das transferências imediatas (mas com desafios por resolver em termos do retalho – eg. Devoluções)
  4. O Online a crescer mais depressa do que na UE: Mas POS continua a dominar volume e número de transações.
  5. Os Terminais Android a redefinir o POS (incluindo SoftPos): Abertura do mercado e melhoria da experiência (com entrada de novos players)
  6. Embedded payments em aceleração: Sobretudo em setores digitalizados: seguros, saúde, serviços, mobilidade, SaaS.
  7. Agentic payments a transformar o comércio digital: Com maior impacto no online.
  8. Euro Digital ainda em fase legislativa: Impacto prático só após 2028.
  9. Maior Presença de soluções Cartões/Wallets que permitem convivência entre Cripto-moedas e “Fiat” em pagamentos (eg. Pagamentos em fiat com cash-back em cripto).
Artigo da autoria de Ricardo Costa e Silva

Co-founder Care2Pay e Board Member da FIF

 

FIF Portugal – Where innovation becomes impact across Insurance, Finance and Health

Contactos FIF Portugal

LinkedIn

Pagamentos em 2026: entre a queda do numerário, a resiliência dos cartões e a entrada na era dos pagamentos integrados

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *