Da Previsão à Prevenção: Como a Inteligência Artificial está a Reinventar os Seguros

Da Previsão à Prevenção: Como a Inteligência Artificial está a Reinventar os Seguros

por Paulo Bracons

 

A indústria seguradora está perante uma das maiores transformações da sua história. Durante décadas, os seguros evoluíram através de melhorias / evoluções graduais nos produtos, nos canais de distribuição e nos processos operacionais. Hoje, porém, a Inteligência Artificial (IA) está a provocar uma mudança muito mais profunda: não apenas altera a forma como as seguradoras trabalham, mas transforma também a própria natureza dos riscos que procuram proteger. E estas alterações têm um profundo impacto nos modelos de negócio e de gestão de risco do setor segurador.

 

A IA começou por ajudar as organizações a compreender o passado através da análise de grandes volumes de dados. Mais recentemente, passou a permitir antecipar tendências e prever acontecimentos futuros. Agora, com o surgimento da IA generativa e dos sistemas agentes (Agentic AI), entramos numa nova fase: a capacidade de agir autonomamente, tomar decisões e executar tarefas complexas. Esta evolução representa uma mudança estrutural para o setor segurador.

 

Os impactos já são visíveis em praticamente toda a cadeia de valor:

  • Na subscrição, a IA permite obter cotações em tempo real através de chatbots que geram “conversações naturais” com clientes, simplificando significativamente o processo de contratação.
  • No pricing, modelos avançados analisam milhões de pontos de dados para melhorar a precisão da avaliação do risco e acelerar a definição do preço e a tomada de decisão.
  • Na gestão de sinistros, sistemas inteligentes conseguem processar participações, validar informação e efetuar pagamentos em segundos, reduzindo custos e melhorando a experiência do cliente.
  • Ao mesmo tempo, os colaboradores das seguradoras estão a beneficiar de copilotos digitais que resumem informação complexa, apoiam a elaboração de relatórios, facilitam a pesquisa documental e auxiliam os subscritores na avaliação de riscos.

A IA está, assim, a aumentar a produtividade e a permitir que os profissionais se concentrem em atividades de maior valor acrescentado, em detrimento de tarefas rotineiras.

 

Contudo, esta transformação operacional representa apenas a face mais visível da mudança. O impacto mais profundo está a verificar-se ao nível dos próprios riscos e do seu impacto nos modelos de negócio.

Historicamente, os seguros foram concebidos para proteger ativos físicos, acidentes, eventos relativamente previsíveis e riscos individuais. Os riscos emergentes do século XXI apresentam características muito diferentes. São frequentemente interligados, sistémicos, intangíveis e altamente dinâmicos.

Um incidente tecnológico pode hoje afetar simultaneamente milhões de pessoas e empresas. Os eventos climáticos extremos podem provocar perdas em regiões inteiras. Ativos como dados, algoritmos, reputação ou propriedade intelectual tornaram-se tão relevantes quanto os ativos físicos tradicionais. Além disso, a velocidade de evolução destes riscos é superior à capacidade dos modelos tradicionais de desenvolvimento de produtos de seguros os absorverem.

 

Paradoxalmente, a IA é simultaneamente uma solução e uma nova fonte de risco. Pela primeira vez, temos sistemas capazes de aprender, adaptar-se e tomar decisões com elevado grau de autonomia. Isto levanta questões inéditas para o setor segurador, em vários planos. Quem responde por uma decisão incorreta tomada por um agente autónomo? Quem assume a responsabilidade por um conselho financeiro gerado por IA ou por um erro clínico suportado por sistemas inteligentes? Como segurar tecnologias que evoluem continuamente e cujo comportamento pode alterar-se ao longo do tempo?

 

A mobilidade autónoma constitui um exemplo particularmente ilustrativo desta transformação. Quando o condutor deixa de ser o principal responsável pela condução, o risco desloca-se progressivamente da pessoa para a tecnologia e para a empresa que a produz. Consequentemente, a responsabilidade poderá transferir-se para fabricantes, empresas de software e operadores de plataformas tecnológicas. Esta evolução exigirá novos modelos de subscrição, novas coberturas e dará uma maior relevância aos riscos cibernéticos.

Mas talvez a maior mudança esteja na própria definição do que significa “seguro”. Tradicionalmente, o modelo segurador assentava em três etapas fundamentais: identificar o risco, precificar esse risco e indemnizar quando ocorria um sinistro. O seguro funcionava essencialmente como um mecanismo financeiro de compensação de perdas.

 

Com a IA, este paradigma começa a mudar. As seguradoras passam a poder monitorizar continuamente os riscos, antecipar problemas, proteger os clientes e prevenir a ocorrência de sinistros. O seguro deixa de ser apenas uma promessa de indemnização futura para se transformar numa presença permanente ao longo da vida do cliente.

Num mundo cada vez mais alimentado / dependente de sensores, internet das coisas (IOT), monitorização online da saúde, digital twins, dados meteorológicos / climáticos em tempo real e ecossistemas digitais integrados, a prevenção tende a tornar-se tão importante quanto a proteção financeira. O valor deixará de ser medido apenas pela rapidez com que uma seguradora paga um sinistro, mas também pela sua capacidade de evitar que esse sinistro aconteça.

 

É neste contexto que os seguros do futuro serão cada vez mais invisíveis, personalizados e contínuos. Invisíveis porque estarão integrados em produtos e serviços do quotidiano. Personalizados porque serão adaptados em tempo real ao perfil de risco de cada indivíduo ou empresa, mas jamais serão ajustados “one-to-one”, pois isso “mataria” o conceito de seguro, que assenta em princípios de mutualização de riscos. Contínuos porque acompanharão permanentemente os clientes através de sistemas inteligentes de monitorização e prevenção.

 

Para que esta visão se concretize em Portugal, onde temos seguradoras em patamares muito diferentes de transformação digital, a implementação da IA no setor segurador deverá assentar em cinco prioridades estratégicas. Primeiro, investir na qualidade, governação e integração dos dados. A IA será tão e mais eficaz quanto os dados que a alimentam. Sem dados fiáveis, estruturados e acessíveis, os benefícios da tecnologia serão limitados.

 

Segundo, desenvolver uma estratégia clara de capacitação das pessoas. O futuro não será definido pela substituição de profissionais por máquinas, mas pela colaboração entre ambos. As seguradoras terão de investir significativamente na literacia digital e na formação dos seus colaboradores.

 

Terceiro, criar modelos robustos de governação e ética da IA. Transparência, responsabilidade, explicabilidade e coerência dos algoritmos e supervisão humana serão elementos essenciais para garantir a confiança dos clientes, reguladores e investidores.

Quarto, acelerar a inovação através de projetos-piloto focados em resultados concretos. Em vez de grandes programas tecnológicos, será mais eficaz começar por casos de uso específicos em áreas como subscrição, sinistros, fraude, atendimento ao cliente / customer service e apoio aos colaboradores.

 

Quinto, reforçar a colaboração entre seguradoras, universidades, startups, insurtechs, reguladores e entidades públicas. O desenvolvimento de um ecossistema nacional de inovação será determinante para aumentar a competitividade do mercado português.

 

Apesar de toda esta evolução tecnológica, existe um elemento que continuará a ser determinante: a confiança. Num contexto em que decisões são cada vez mais suportadas por algoritmos, a qualidade dos dados, a governação, a transparência e a responsabilidade tornam-se fatores críticos. O verdadeiro desafio não é apenas tecnológico; é também estratégico, organizacional e humano.

 

A Inteligência Artificial não representa apenas mais uma inovação para o setor segurador. Representa uma redefinição profunda do seu propósito. O setor está a evoluir de um modelo centrado na previsão e compensação de perdas para um modelo orientado para a prevenção, proteção e criação contínua de valor. As seguradoras que compreenderem esta mudança e conseguirem combinar tecnologia, inovação e confiança estarão mais bem posicionadas para liderar o futuro.

 

 

 

 

 

 

Artigo da autoria de Paulo Bracons, Presidente do Conselho Fiscal e membro do Grupo Insurtech  da FIF Portugal, Economista e Consultor no setor segurador e de gestão de risco; Diretor do Programa “Inovação e Transformação em Seguros”, da Católica-Lisbon, SBE

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